Arte e prazer, qual é o problema?

Eu sei que tinha prometido um artigo sobre super-herois, mas ele vem depois.

Ok, fato. No Brasil muita gente vê quadrinho com um olhar condescendente. Outro fato, a indústria de HQ é enorme, e atende a públicos variadíssimos – de certo modo, é possível fazer nos quadrinhos muita coisa que consome tempo, grana e pode não atrair muita gente numa forma artística mais cara. Mas tem um outro problema que me deixa “perplecto”: por que há tanta gente esnobe dentro das artes? Qualquer das artes. Gente que faz do sofrimento um estandarte, e que se delicia com quebra-cabeças intelectuais e conceituais antes de resolver suas invisibilidades – e quase tudo é invisível, de nós para dentro. Gente que se recusa a ter prazer com alegria, pelo menos. Chamo a atenção disso porque os quadrinhos são o reino contrário disso. Nada de falsos satisfeitos pagando de “drogado erótico”, expressão ótima que li esses dias, descontentes com a vida, ou fingindo de descontentes, sabe-se lá.

Fato é que lemos, e fazemos, quadrinho por prazer. Sem ele, nada feito: vá fundar uma empresa e contar os dias para morrer. Claro que tem que ter grana (diz ele, que detesta o sistema capitalista mas tem aluguel e etc. para pagar). Mas não é mais  possível entender arte, tanto quanto a vida, sem sorrir. Ninguém fale de momentos tristes, temos todos, nem de crises, que segundo o Senhor Miyagui “te pegam que nem uva”. Tem mais a ver com uma postura apocalíptica  mais ou menos deflagrada, mais ou menos esconsa, que anda pela terra há já uns 60 anos ou mais.

Theodor Adorno, um cara que admiro muito mas acho um chato (ou pelo menos o que ele escreveu, apesar de correto) vai servir de exemplo aqui. Como é que num cara tão inteligente vai me dizer que “Depois de Auschwitz fazer poesia é um ato de barbárie”? Se fosse um jornalista ou um Emo da vida, ainda vá lá. Mas o cara é filósofo, o que ele escreve influenciou muita gente. Acho que faltou alguém que desse um tapão na orelha para dizer “É justamente o contrário. Agora é que precisamos acreditar. Agora é o momento de ter esperança. Fazer poesia, agora, é exatamente o que necessitamos, mais do que nunca. Por quê, pergunta o bobo.

Porque é quando temos fome que precisamos de comida; não quando já estamos empanturrados. É fácil ser cristão dentro da igreja, é fácil ser político dentro do partido, onde ninguém discorda de você (em tempo: eu sei, eu sei…). Mas, para ambos os casos e mais outros, é lá fora, no estranho do mundo, que importa fazer o que você aprendeu. Ok temermos o que o mundo nos mostra de feio, mas fugir dele, ou sentar e recusar o mundo em absoluto só vai fazer com que a sujeira acumule, que as pessoas não se conheçam, não se amem, se distanciem, se estranhem, desistam.

Conheço mais de um, mais de vários, que caíram nessa conversa. Não sou dos mais felizes, mais descobri muitos, vários, que só são felizes porque se escondem no que os agrada. Fora disso, é choro atrás de choro. São incapazes, ou querem ser incapazes, de olhar o mundo bem no olho, como diz o Roland Oarzabal, e dali fazer alguma coisa. Mesmo que seja um poema, ou um gibi.

Ainda bem que nem todos se esqueceram. Ainda tem gente que exercita sua suspensão da descrença. Criamos, lemos, pensamos, comentamos. Quem estuda arte no Brasil geralmente cai no lugar-comum que a arte feita aqui é realista. Mas sabem por que se lê tanto gibi de Super-Heroi? Porque a fantasia é necessária, e se você não a encontra no primeiro ligar, procura por outro. E se não há quadrinhos de fantasia no Brasil, vamos buscar em outro lugar, traduzindo. Falar nisso, que tal mais fantasia por aqui?

Eu sei, eu sei. Tem bastante. Mas por que aparece menos? Dê asas, se não eu vou ter que fazer isso. Não acredite no Adorno, os inteligentes falam as maiores besteiras, de vez em quando.

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