Como lemos histórias em quadrinhos

Antes de começar, é melhor esclarecer que não vou falar de indústria cultural aqui. Esse texto, pelo menos esse, não tem a ver com massificação de mídia, preferências escolhidas por emissoras ou editoras, nem censuras quiçá feitas aos meios de comunicação e arte. O como aqui diz respeito à semiótica dos quadrinhos. O que seu olho faz para que você consiga juntar as coisas, dar sentido a elas. Vou buscar muita coisa no livro do Scott McCloud, Desvendando os quadrinhos [1]. Outro tanto tem a ver com o trabalho sobre os vazios e a interação destes com o leitor [2], de Wolfgang Iser, e o trabalho sobre a imaginação, de Sartre [3]. Mais do que tudo, devo ao meu amado irmão, o Rafa (atenção, o Rafa), e sua maravilhosa dissertação de Mestrado sobre o Watchmen. Foi com ela que passamos a discutir quadrinho como coisa séria, e ao mesmo tempo prazerosa. Não dá para perder a gana, quando se vira cientista. Perdeu, se ferrou. Mas vamos à baila. O que fazer para ler gibi? Melhor, o que nossa mente, percepção (cérebro para alguns, alma para outros) faz para que a gente entenda que o Doutor Destino se ferrou e que o Groo teria errado?

Vamos começar com isso:

Simples, não? Uma carinha. Como é que você sabe?

Se você leu o McCloud, ele vai dizer que os seres humanos são uma raça autocentrada, que vêem a si mesmos em tudo e que projetam a imagem que tem de si mesmos, simplificada, em um cartum, pois é assim que normalmente se visualizam. Há outros autores que falam disso. Me espantei um pouco depois que vi a mesma carinha nas Reflexões filosóficas, do  Wittgenstein, se bem que a semiótica anglo-saxônica é toda baseada nele. Bom, o que tem tudo isso a ver com gibi. Vamos ver outro exemplo:

Quando pergunto aos alunos (do curso que ministrei sobre quadrinhos) o que acontece aqui, além claro do humor em si, quando desço ao nível da simples descrição, a coisa se complica, incrivelmente. Primeiro, por faltar aos alunos, à educação brasileira em geral, uma proximidade com a descrição. É difícil até que eles descrevam seus próprios quartos, ou sua página do orkut, imagine o resto – peça para eles para ver o que acontece. Então há uma bolsa temporal de hesitação: como assim ‘o que acontece aqui’?. Quando entendem que estou pedindo para me dizerem o que a pessoa fez entre um quadro e outro, elas entendem e dizem: ela se mexeu, ela abriu a caixa, ela levantou o braço. Pergunta retórica: ela se mexeu? Ninguém se mexeu aqui, a tinta que compõe a imagem do braço (ou os pixels, nesse caso) não saiu de onde estava, dirigiu-se a um novo lugar e tomou outra posição: você mexeu o braço da menina (que por acaso se chama Suriá, a menina do circo… Laerte é o cara). Ponto final. Sua cabeça, ou mais especificamente sua imaginação, fez isso, mexeu um braço entre uma posição e outra. Como isso acontece?

Bom, existe uma coisa em sua mente que faz as coisas acontecerem. Nós pensamos sempre, até sem que peçam. Tem gente que não gosta da ideia – se tem uma coisa que me enerva é gente dizendo “não pensa, faz”. Frasezinha do Hofstadter: como se fosse fácil suprimir o pensamento. Impossível. Tente; você vai pagar pato e eu vou ficar rindo (lembra da história do não pense no azul?). Bom, quando você vê alguma coisa que não parece, aparece incompleta, você completa mentalmente essa coisa. Tudo. De meio rosto aparecendo a cenas que você só vê pela metade, embora fique esperando o resto. Você faz isso o tempo todo. Em linguística tem a ver com pressupostos e subentendidos (mudou a nomenclatura, se não me engano), em psicologia tem a ver com a projeção que faço da impressão que o outro tem de mim. Nos quadrinhos, McCloud chama isso de conclusão. Sartre dividiu em dois e chama de imaginação receptiva e imaginação perceptiva – provavelmente os dois termos estão errados, mas a ideia é a seguinte: existe um ato de sua mente que recebe e organiza as imagens, as impressões, sons, palavras, cheiros, etc. Essa parte é recepção. E existe um salto criativo que você dá quando você tem uma parte inicial das impressões, e uma parte final delas, mas não a parte do meio. Você (eu também) projeta essa parte, precisa criá-la mentalmente, porque ela não te é dada. Isso é projeção (não tenho certeza se é chamada de “percepção” também, depois vejo).

O problema da projeção é que ela demanda mais de você, de sua imaginação, para ser criada. Esse é um problema possível da leitura, para os preguiçosos. Quando lêem, ou quando alguém narra que “Pedro entrou pela porta azul, e a sala estava escura”, eles têm que imaginar a porta, sua cor, talvez seu tamanho, e imaginar, criar, projetar, a escuridão lá dentro. Ah, e imaginar Pedro também. Bem mais custoso mentalmente do que ver a cena em que o menino abre a porta azul e está escuro. Mas bem mais recompensador (por isso um monte de gente se decepciona quando um livro que leu é transposto para o cinema: eles tinham inaginado de outro jeito). Então a palavra escrita, e a narrativa ainda mais, tem essa coisa legal e custosa de projetar. E não numa camada só. Ainda tem a parte metafórica. Quer dizer, além de criar a cena mentalmente, ainda temos que entender como ela funciona metaforicamente. Se não me engano, Sartre chamou isso de percepção de primeiro grau e de segundo grau, respectivamente. A preguiça em relação a isso está criando leitores mais imagéticos, e cada vez mais saímos do letramento para o imagético.

Mas o que é a dor de cabeça e a delícia da literatura, da palavra escrita, é uma parte das histórias em quadrinhos. Atenção, cinéfilos: é também aqui que quadrinhos e cinema se separam. Enquanto a literatura exercita a projeção do sentido em vários graus, mas fornece apenas palavras, sem mais dados receptivos (imagens, sons), os quadrinhos proporcionam muito receptivamente. As imagens contam muito, quantitativa e narrativamente. Dão muito ao leitor, que se acha livre para exercer sua preguiça. No entanto, entre cada quadro, cada painel, o espaço exige uma projeção de sentido, que ele nem nota que faz, como o movimento do braço da Suriá, ou podem ser coisas mais distantes, como uma briga, um fora de alguém ou uma ameaça velada.

Já o que faz a diferença em relação ao cinema é a distribuição das imagens. Enquanto tradicionalmente (múltiplas telas simultâneas não são a regra) no cinema há apenas uma tela para narrar, nas HQs os takes estão distribuídos espacialmente. Isso faz criar um espaço projetivo, físico mesmo. Entre um quadrinho e outro (a linha preta, se você olhar para a tirinha acima) há um espaço mínimo sem nada, e ali você deposita sua projeção, mínima que seja, necessária para a história ou pessoal como uma interpretação. A “falta de movimento” dos quadrinhos te dá a chance de esquadrinhar (viva a aliteração) cada painel, estudar o traço, comparar conclusões prévias, coisa que cada cena de cinema te impede: imagens demais, sem tempo para avaliar a maioria delas. Isso não é demérito, é apenas outro meio, característica de outra arte.

Acho que o básico é esse. Será que isso te fez ver como Groo errou? Acho que não. Mas fuce cada quadrinho, exercite isso, é uma delícia. Segundo Lao Tse, “o que existe serve para ser possuído, / o que não existe serve para ser útil”. Use o espaço, a sarjeta, entre cada quadro e deixe voar. O que te diz o espaço entre as coisas?

Até.

A seguir: divagação sobre heróis: por que usar cueca por cima da calça?

_______________

[1] São Paulo: M. Books, 2001. Não sei como os fãs de quadrinhos não lêem (e relêem) mais esse cara. Obrigatório.

[2] São Paulo: Paz e Terra, 1976. É antigo, mas um trabalho fantástico, em especial o texto do Iser, para mim.

[3] Lisboa: Difel, 1982. Difícil e chato, mas compensa pela base. Sartre era karateca…

About these ads

Uma resposta para “Como lemos histórias em quadrinhos

  1. Muito bom, depois desse post penso em reorientar meu TCC de HQs na Educação para uma Análise Semiótica dos Quadrinhos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s