Nas margens

Educação.

Palavra meio de ordem, coisa que a gente ainda não entende muito bem. E ainda mais em um meio como os quadrinhos. O que um tem a ver com a outra?

Bom, é simples, mas digerir não é fácil. Gibis são bons para a educação do seu filho – e sua, o filho em questão – porque são legais, uma palavra que, acabei de aprender, tem a ver com a obsessão do brasileiro por (i)legalidade. Gibis saem fora do escopo chato das coisas que são dadas para ler. Essas coisas “chatas” não são chatas de verdade, mas seu filho – e você, filho – não é ensinado a lê-las. A isso se chama analfabetismo funcional. O que é isso?

Lá vai um exemplo, em vez de um conceito. Analfabetismo funcional se dá quando você encontra uma placa e nela está escrito “Chute a própria bunda”. Você lê a placa. Pensa um pouco. E chuta a própria bunda.

Direto assim. Você não pensa, não reflete, não colhe o sentido (colegere, se não me engano), que é a definição clássica de leitura. Apenas, no máximo, obedece o que leu. Não é capaz de entender o que o texto apresentado está tentando fazer com você. Na maior parte das vezes, apenas repete na fala. Algumas vezes, ainda faz o que está na placa. Porque algumas vezes, bom, algumas vezes você não consegue nem entender o que a placa diz, e fica sem chutar sua bunda (o que é uma coisa boa) mas porque não entendeu a mensagem (o que só é bom para alguns, não para você).

Gibis são bons porque mostram que leitura é uma coisa legal, boa, adorada, que realmente entretém (no sentido de nos absorver, como diz o Felipe Pena), que mostra um trabalho com o imaginário e a fantasia perto do qual o cinema não chega perto – embora esteja querendo chegar, com cada vez mais adaptações de HQs para cinema. Gibis são boa leitura porque:

1) Os pais, em geral, não mandam os filhos os lerem (eles escolhem porque querem);
2) os professores não os recomendam (os alunos leem porque querem);
3) as histórias são bem escritas (em geral) e lidam com valores muito próximos da vida, diferentemente de certos (muitos) livros que temos de ler;
4) como e toda arte, há o bom e o ruim. Mas como ninguém presta muita atenção a cânones nessa área, as recomendações são pessoais: é muito bom, pode ler, é bom bagarai.

e

5) Gibis não são material para crianças, somente. Dizer isto no Brasil é novidade, mas só no Brasil (e em alguns outros países, procure no Google). Nunca diga isto no Japão ou na França.

Quanto a esse último, já passou da hora de as pessoas entenderem que gibi pode ser tão boa literatura quanto a alta literatura. Há textos bons e ruins, em qualquer área. A maioria é ruim, fazer o quê? Alguns são bons (fazer o quê?). Procure os bons, mas primeiro procure o que seja do seu gosto. Eu cada vez menos leio quadrinhos de super-heróis (Batman ainda é uma exceção) e cada vez mais me interesso pelo experimental (e existe isso nos gibis? Nunca vi na turma da mônica, já antecipo algumas galeras falando).

Querem umas amostras? Here we go, webcomics, duas delas:

His face all red, de Emily Carrol.
Hobo Lobo, se não me engano de Steven Ẑivandinović.
Leia qualquer coisa do Rafael Sica.
E tem muito mais. É claro. Mas ainda vão achar que não.

Arte e prazer, qual é o problema?

Eu sei que tinha prometido um artigo sobre super-herois, mas ele vem depois.

Ok, fato. No Brasil muita gente vê quadrinho com um olhar condescendente. Outro fato, a indústria de HQ é enorme, e atende a públicos variadíssimos – de certo modo, é possível fazer nos quadrinhos muita coisa que consome tempo, grana e pode não atrair muita gente numa forma artística mais cara. Mas tem um outro problema que me deixa “perplecto”: por que há tanta gente esnobe dentro das artes? Qualquer das artes. Gente que faz do sofrimento um estandarte, e que se delicia com quebra-cabeças intelectuais e conceituais antes de resolver suas invisibilidades – e quase tudo é invisível, de nós para dentro. Gente que se recusa a ter prazer com alegria, pelo menos. Chamo a atenção disso porque os quadrinhos são o reino contrário disso. Nada de falsos satisfeitos pagando de “drogado erótico”, expressão ótima que li esses dias, descontentes com a vida, ou fingindo de descontentes, sabe-se lá.

Fato é que lemos, e fazemos, quadrinho por prazer. Sem ele, nada feito: vá fundar uma empresa e contar os dias para morrer. Claro que tem que ter grana (diz ele, que detesta o sistema capitalista mas tem aluguel e etc. para pagar). Mas não é mais  possível entender arte, tanto quanto a vida, sem sorrir. Ninguém fale de momentos tristes, temos todos, nem de crises, que segundo o Senhor Miyagui “te pegam que nem uva”. Tem mais a ver com uma postura apocalíptica  mais ou menos deflagrada, mais ou menos esconsa, que anda pela terra há já uns 60 anos ou mais.

Theodor Adorno, um cara que admiro muito mas acho um chato (ou pelo menos o que ele escreveu, apesar de correto) vai servir de exemplo aqui. Como é que num cara tão inteligente vai me dizer que “Depois de Auschwitz fazer poesia é um ato de barbárie”? Se fosse um jornalista ou um Emo da vida, ainda vá lá. Mas o cara é filósofo, o que ele escreve influenciou muita gente. Acho que faltou alguém que desse um tapão na orelha para dizer “É justamente o contrário. Agora é que precisamos acreditar. Agora é o momento de ter esperança. Fazer poesia, agora, é exatamente o que necessitamos, mais do que nunca. Por quê, pergunta o bobo.

Porque é quando temos fome que precisamos de comida; não quando já estamos empanturrados. É fácil ser cristão dentro da igreja, é fácil ser político dentro do partido, onde ninguém discorda de você (em tempo: eu sei, eu sei…). Mas, para ambos os casos e mais outros, é lá fora, no estranho do mundo, que importa fazer o que você aprendeu. Ok temermos o que o mundo nos mostra de feio, mas fugir dele, ou sentar e recusar o mundo em absoluto só vai fazer com que a sujeira acumule, que as pessoas não se conheçam, não se amem, se distanciem, se estranhem, desistam.

Conheço mais de um, mais de vários, que caíram nessa conversa. Não sou dos mais felizes, mais descobri muitos, vários, que só são felizes porque se escondem no que os agrada. Fora disso, é choro atrás de choro. São incapazes, ou querem ser incapazes, de olhar o mundo bem no olho, como diz o Roland Oarzabal, e dali fazer alguma coisa. Mesmo que seja um poema, ou um gibi.

Ainda bem que nem todos se esqueceram. Ainda tem gente que exercita sua suspensão da descrença. Criamos, lemos, pensamos, comentamos. Quem estuda arte no Brasil geralmente cai no lugar-comum que a arte feita aqui é realista. Mas sabem por que se lê tanto gibi de Super-Heroi? Porque a fantasia é necessária, e se você não a encontra no primeiro ligar, procura por outro. E se não há quadrinhos de fantasia no Brasil, vamos buscar em outro lugar, traduzindo. Falar nisso, que tal mais fantasia por aqui?

Eu sei, eu sei. Tem bastante. Mas por que aparece menos? Dê asas, se não eu vou ter que fazer isso. Não acredite no Adorno, os inteligentes falam as maiores besteiras, de vez em quando.

Como lemos histórias em quadrinhos

Antes de começar, é melhor esclarecer que não vou falar de indústria cultural aqui. Esse texto, pelo menos esse, não tem a ver com massificação de mídia, preferências escolhidas por emissoras ou editoras, nem censuras quiçá feitas aos meios de comunicação e arte. O como aqui diz respeito à semiótica dos quadrinhos. O que seu olho faz para que você consiga juntar as coisas, dar sentido a elas. Vou buscar muita coisa no livro do Scott McCloud, Desvendando os quadrinhos [1]. Outro tanto tem a ver com o trabalho sobre os vazios e a interação destes com o leitor [2], de Wolfgang Iser, e o trabalho sobre a imaginação, de Sartre [3]. Mais do que tudo, devo ao meu amado irmão, o Rafa (atenção, o Rafa), e sua maravilhosa dissertação de Mestrado sobre o Watchmen. Foi com ela que passamos a discutir quadrinho como coisa séria, e ao mesmo tempo prazerosa. Não dá para perder a gana, quando se vira cientista. Perdeu, se ferrou. Mas vamos à baila. O que fazer para ler gibi? Melhor, o que nossa mente, percepção (cérebro para alguns, alma para outros) faz para que a gente entenda que o Doutor Destino se ferrou e que o Groo teria errado?

Vamos começar com isso:

Simples, não? Uma carinha. Como é que você sabe?

Se você leu o McCloud, ele vai dizer que os seres humanos são uma raça autocentrada, que vêem a si mesmos em tudo e que projetam a imagem que tem de si mesmos, simplificada, em um cartum, pois é assim que normalmente se visualizam. Há outros autores que falam disso. Me espantei um pouco depois que vi a mesma carinha nas Reflexões filosóficas, do  Wittgenstein, se bem que a semiótica anglo-saxônica é toda baseada nele. Bom, o que tem tudo isso a ver com gibi. Vamos ver outro exemplo:

Quando pergunto aos alunos (do curso que ministrei sobre quadrinhos) o que acontece aqui, além claro do humor em si, quando desço ao nível da simples descrição, a coisa se complica, incrivelmente. Primeiro, por faltar aos alunos, à educação brasileira em geral, uma proximidade com a descrição. É difícil até que eles descrevam seus próprios quartos, ou sua página do orkut, imagine o resto – peça para eles para ver o que acontece. Então há uma bolsa temporal de hesitação: como assim ‘o que acontece aqui’?. Quando entendem que estou pedindo para me dizerem o que a pessoa fez entre um quadro e outro, elas entendem e dizem: ela se mexeu, ela abriu a caixa, ela levantou o braço. Pergunta retórica: ela se mexeu? Ninguém se mexeu aqui, a tinta que compõe a imagem do braço (ou os pixels, nesse caso) não saiu de onde estava, dirigiu-se a um novo lugar e tomou outra posição: você mexeu o braço da menina (que por acaso se chama Suriá, a menina do circo… Laerte é o cara). Ponto final. Sua cabeça, ou mais especificamente sua imaginação, fez isso, mexeu um braço entre uma posição e outra. Como isso acontece?

Bom, existe uma coisa em sua mente que faz as coisas acontecerem. Nós pensamos sempre, até sem que peçam. Tem gente que não gosta da ideia – se tem uma coisa que me enerva é gente dizendo “não pensa, faz”. Frasezinha do Hofstadter: como se fosse fácil suprimir o pensamento. Impossível. Tente; você vai pagar pato e eu vou ficar rindo (lembra da história do não pense no azul?). Bom, quando você vê alguma coisa que não parece, aparece incompleta, você completa mentalmente essa coisa. Tudo. De meio rosto aparecendo a cenas que você só vê pela metade, embora fique esperando o resto. Você faz isso o tempo todo. Em linguística tem a ver com pressupostos e subentendidos (mudou a nomenclatura, se não me engano), em psicologia tem a ver com a projeção que faço da impressão que o outro tem de mim. Nos quadrinhos, McCloud chama isso de conclusão. Sartre dividiu em dois e chama de imaginação receptiva e imaginação perceptiva – provavelmente os dois termos estão errados, mas a ideia é a seguinte: existe um ato de sua mente que recebe e organiza as imagens, as impressões, sons, palavras, cheiros, etc. Essa parte é recepção. E existe um salto criativo que você dá quando você tem uma parte inicial das impressões, e uma parte final delas, mas não a parte do meio. Você (eu também) projeta essa parte, precisa criá-la mentalmente, porque ela não te é dada. Isso é projeção (não tenho certeza se é chamada de “percepção” também, depois vejo).

O problema da projeção é que ela demanda mais de você, de sua imaginação, para ser criada. Esse é um problema possível da leitura, para os preguiçosos. Quando lêem, ou quando alguém narra que “Pedro entrou pela porta azul, e a sala estava escura”, eles têm que imaginar a porta, sua cor, talvez seu tamanho, e imaginar, criar, projetar, a escuridão lá dentro. Ah, e imaginar Pedro também. Bem mais custoso mentalmente do que ver a cena em que o menino abre a porta azul e está escuro. Mas bem mais recompensador (por isso um monte de gente se decepciona quando um livro que leu é transposto para o cinema: eles tinham inaginado de outro jeito). Então a palavra escrita, e a narrativa ainda mais, tem essa coisa legal e custosa de projetar. E não numa camada só. Ainda tem a parte metafórica. Quer dizer, além de criar a cena mentalmente, ainda temos que entender como ela funciona metaforicamente. Se não me engano, Sartre chamou isso de percepção de primeiro grau e de segundo grau, respectivamente. A preguiça em relação a isso está criando leitores mais imagéticos, e cada vez mais saímos do letramento para o imagético.

Mas o que é a dor de cabeça e a delícia da literatura, da palavra escrita, é uma parte das histórias em quadrinhos. Atenção, cinéfilos: é também aqui que quadrinhos e cinema se separam. Enquanto a literatura exercita a projeção do sentido em vários graus, mas fornece apenas palavras, sem mais dados receptivos (imagens, sons), os quadrinhos proporcionam muito receptivamente. As imagens contam muito, quantitativa e narrativamente. Dão muito ao leitor, que se acha livre para exercer sua preguiça. No entanto, entre cada quadro, cada painel, o espaço exige uma projeção de sentido, que ele nem nota que faz, como o movimento do braço da Suriá, ou podem ser coisas mais distantes, como uma briga, um fora de alguém ou uma ameaça velada.

Já o que faz a diferença em relação ao cinema é a distribuição das imagens. Enquanto tradicionalmente (múltiplas telas simultâneas não são a regra) no cinema há apenas uma tela para narrar, nas HQs os takes estão distribuídos espacialmente. Isso faz criar um espaço projetivo, físico mesmo. Entre um quadrinho e outro (a linha preta, se você olhar para a tirinha acima) há um espaço mínimo sem nada, e ali você deposita sua projeção, mínima que seja, necessária para a história ou pessoal como uma interpretação. A “falta de movimento” dos quadrinhos te dá a chance de esquadrinhar (viva a aliteração) cada painel, estudar o traço, comparar conclusões prévias, coisa que cada cena de cinema te impede: imagens demais, sem tempo para avaliar a maioria delas. Isso não é demérito, é apenas outro meio, característica de outra arte.

Acho que o básico é esse. Será que isso te fez ver como Groo errou? Acho que não. Mas fuce cada quadrinho, exercite isso, é uma delícia. Segundo Lao Tse, “o que existe serve para ser possuído, / o que não existe serve para ser útil”. Use o espaço, a sarjeta, entre cada quadro e deixe voar. O que te diz o espaço entre as coisas?

Até.

A seguir: divagação sobre heróis: por que usar cueca por cima da calça?

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[1] São Paulo: M. Books, 2001. Não sei como os fãs de quadrinhos não lêem (e relêem) mais esse cara. Obrigatório.

[2] São Paulo: Paz e Terra, 1976. É antigo, mas um trabalho fantástico, em especial o texto do Iser, para mim.

[3] Lisboa: Difel, 1982. Difícil e chato, mas compensa pela base. Sartre era karateca…

Crítica de gibi, para quê?

Olá,
Existem duas perguntas que podem ser feitas, mas em geral não são, não juntas. Sobre qualquer coisa. Uma é “por quê?”. A outra é “para quê?”. Não são a mesma coisa. Perguntar por que algo acontece não é a mesma coisa que perguntar para que se faz algo, ou para que usar essa coisa. Sem muito mais filosofia que isso, queria pensar em um para quê, uma finalidade da crítica para histórias em quadrinhos, gibis, tirinhas, qualquer coisa dessa arte gráfica, textual, acional, que amamos tanto e que, pelo menos por essas terras, é ainda tão subconsiderada.

Para começar, essa subconsideração. O Brasil – ok, a crítica, os professores, os que não lêem HQ* – ainda tratam-na como se fosse “coisa de criança”, subgênero, paraliteratura, mídia de massa, tudo menos qualquer coisa séria. Talvez um passado recente, cheio de marxismos, ditaduras e tais, tenha contribuído para um país em que há formas artísticas levadas a sério – como a música para alguns, embora cada vez mais uma minoria – e formas para os que não têm tanto “gosto” assim, tanta inteligência. Bom, isso só mostra o quanto o Brasil ainda é o país mais parnasiano que existe: idolatra o que não entende, pode tornar sua antropofagia fonte de indigestão, já que não processa o que come, e come o que aparece pela frente, meio sem critério. Já que se leva tanto pelas vogas externas – o que não acho nem um pouco ruim em si, ao contrário – sua crítica podia entender que HQ é arte, com todos os matizes qualitativos: há a parte refinada e a parte “povão”, e nem o refinamento nem a popularidade indicam qualidade. Só a leitura vai indicar. Leiam, portanto. Mas acho que os professores e autoridades aqui têm mais que fazer, não? Não têm tempo para entender que lá fora já virou arte, instituição, “gente grande” há algum tempo. E nós aqui…

Então, para que a crítica? Bom, para tentar mostrar às pessoas, tanto a neófitos quanto a estudiosos, eu incluso, a riqueza que há em histórias em quadrinhos, tanto formalmente, como veículo de construção artística (e cada arte se diferencia com seus materiais e seus modos de abordá-los) quanto nas relações dos quadrinhos com o mundo, seus leitores, suas obras-primas, seus expoentes, suas coisas legais (e suas coisas horríveis também). Só espero que não venham aqui pensando em arte sem prazer (sim, quadrinho é arte, acredite, não dói). Antes e mais importante do que ser um veículo de pensamento, esse blog é um veículo de prazer. Pelo texto bem lido, ou pelo riso dado ao texto mal escrito.

Post que vem, na semana que vem: como lemos HQ, o que nosso cérebro faz para que leiamos e as coisas façam (algum) sentido.

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* HQs: histórias em quadrinhos. Se você precisa de explicação para isso, começou a ler gibi agora, provavelmente por obrigação.